HISTÓRICO DA EROSÃO NO NOROESTE DO PARANÁ

Professor Siumar Goetzke
Biólogo, Mestre em Botânica,  Especialista em Gerenciamento Ambiental.

Na era mesozóica o Brasil foi sacudido por intensas processos de vulcanismo. As erupções ocorreram através de fendas de tracção em uma área de 1500000Km². Foram 8 a 13 derrames de lava e entre os quais houve intervalos com fazes de sedimentação eólica.

Após a ultima fase do vulcanismosobre a solidão da imensa planície de lava basáltica ediabásica no continente de Gondowana, no fim do Triássico e inicio do Jurássico, surgil um clima extremamente árido, que deu origem a sedimentação continua do noroeste do Paraná, que recebeu o nome de Arenito Caiuá.

Este arenito de estruturação fina, avermelhado de depósitos tipicamente eólicos ( dunas fosseis), deu origem aos solos predominantes na região. Sobre estas planícies desérticas com a chegada de um climamais úmido,surgiu uma vegetação de pequenos vegetais que iniciaram  inúmeras series de sucessões, que culminaram com o surgimento semelhante a do Cerrado existente no Brasil central. Apesar de algumas diferenças paisagísticas com aquele bioma , apresentava espécies típicas, como Striphynodendromsp ( Barbatimão), Cocos sp ( Barrri) e Diplothemium campestre (palmeira anã).Os Campos inclusos de Campo Mourão ( atual mente praticamente extinto) são um prova biológica desta incrível sucessão biológica.

Com a continuidade de um período mais úmidos a Região Noroeste evoluiu na dinâmica sucessional para uma floresta Estacional Semidecidual, havendo no seu interioralem dos Campos  Inclusos, alguns relictus  de clima árido, como o cactus Cereussp ( Mandacaru). Estafloresta  possui um numero reduzido de espécies, demostrando que houve em funçao do clima e solo  uma seleção natural muito rigorosa. A própria estacionalidade, com a queda das folhas no período mais seco do ano é uma prova deste processo de seleção natural. A Aspidospermapolineurom( Peroba), com seu tronco de casca grossa e fissurado, ramos vigorosos é mais uma evidencia de adaptação a um clima mais árido.


Aspidosperma polyneuron (Peróba)


Marcha da Colonização

Em 1854 houve uma queda de produtividade nas terras do Rio de Janeiro, cujas técnicas de exploração levaram a exaustão do solo, a erosão  e ao abandono da terra. Ocorrendo umaexpansão da cultura cafeeira para o sul de minas , vale do Paraiba em Sáo Paulo.

Amedida que as facilidades de transporte como estradas de ferro iam alcançando  as régios colonizadas, as florestas das redondezas iam tombando, Em 1920 as ferrovias avançaram para o Oeste de São Paulo que se tornava potencia mundial de produção de Café. Em 1935 o estado estava completamente destituído de suas florestas chegando o desmatamento até as margens do rio Paraná.

As Galhetas basculantes, carregavam as pedras na jazidae descarregavam sem condutor.


No Paraná, embora o alvoda colonização tenha sido a terra roxa as régios do arenito receberam  os colonizadores na mesma velocidade. A colonização nas décadas de 1940 e 1950 seguram duas principais rotas. Uma partindo de Maringá em direção ao Noroeste para uma ocupação triangular dos solos arenosos entre Paraná, Paranapanema e Ivaí. Outra frente corria em direçãoa Cianorte ao longo da ferrovia projetada para Cruzeiro do Oeste e Guairá.

Seguindo exemplo dos estados mais “desenvolvidos”, o Paraná desde o inicio de sua colonização, teve como marca principalos sistemas agrícolas imediatistas, quase sempre decorrentes de estímulos encômios e politico facilitadores da exploração cíclica e migratória. Sob esta ótica o governo do Estado do Paraná  em 1925, vendeu á Companhia  de Terras Norte do Paraná, subsidiaria da  Paraná Plantaion LTD,  of London, 12.447,54 Km² de terras não reclamadas na zona nova do Norte do Paraná. Esta Companhia executou o mais bem sucedido plano de Colonização da história do Brasil.

Para atrairos colonizadores usou propaganda em larga escala, oferecendo transportes gratuitos, promessa de posse em 4 anos, assistência técnica e financeira. Inicialmente a proposta da companhia era dar prioridade a pequena propriedade, em media 40 há, porem nada impedia a aquisição de múltiplos lotes.

Com a chegada dos colonos, a primeira atividadeque imperou foi a exploração da madeira para a construção. Em seguida plantio culturas de subsistência, e depoisalgodão, café, cana de açúcar . Com as facilidades de transporte a exploração de madeiras, de 82.031 toneladas em 1933, para 307.794 toneladas  em 1939. Entre 1920 á 1940 a população paranaense duplicou, alcançando 1236.276 habitantes, passando ao 18 lugar entre os estados da federação, com 3% da população brasileira.


Maringá 1950


A conseqüência da violência da colonização no estado do Paraná, que possuía 83,7% de florestas, 164.824km², dos quais 29,9% eram florestas latifoliadas e 43,8% eram florestas com araucárias. Esta imensas cobertura floestal em poucas décadas ficou reduzida a 5,1%.

Já em 1931, a área devastada era de 38.000Km², e em 1948, atingia a elevada cifra de 87.220 Km², neste período odesmatamento era tão rigoroso, que já se sentia falta de água, a escassez de lenha e inicia-se a erosão do solo, segundo Reinhard Maack em 1949, “As reservas de arvores do Estado estão sendo de tal forma esgotada, que em poucos decênios o Pinheiro, o Cedro, a Imbuia e a Peroba serão consideradas raridades Botânicas e o Estado do Paraná, poderoso exportador, passará a importador de madeira”.


O Noroeste recebeu a cultura do café em função da fama das regiões arenosas do Estado de São Paulo, este Julgamento foi baseadona  cobertura vegetal original, entre 1950 e 1960, a agricultura na região teve um bom desempenho com grandes safras de café de ótima qualidade, bem como outras culturas entre elas milho, algodão, amendoim  e também criação de suínos.

Apóseste breve período as terras do Noroeste do Paraná , foram sofrendo a mineralização da matéria orgânica pelo manejo inadequado, a erosão laminar foi muito intensa, pela alta pluviosidade e pela falta de força coloidal do solo arenoso.

A produtividade dos cafeeiros começou a decair e as voçorocas ou ravinasassustaram os cafeicultores, que começaram a vender suas propriedades. Em 1963 o professor Wladimir CavallarKavaleridz, “A erosão desenvolveu-se na região em progressão geométrica, ameaçando transformá-la em deserto. “ Seus solos ricos e férteis se transformaram  em pobres e quase estéreis, perdendo a cor velho-roxa, ficando esbranquiçados. Desta forma foi inevitável a erradicação de 250 milhões de pés de café em função de baixa produtividade e não houve replantio, sendo 60% das áreas transformadas em pastagens ou substituídas por culturas menos exigentes.

COMBATE A EROSÃO

Na área urbana os problemas da erosão também foram sentidos. Como a Ocupação humanafoi feita sem considerar os aspectos físicos do solo e nem os aspectos ecológicos da região. Houve uma verdadeira avalanche de voçoroca, que engoliam ruas inteiras, chegando a destruir até as casas. Este fato na década de 60 provocou uma intensa movimentação política, que culminou com o inicio do combate a erosão no Estado do Paraná. As obras ficaram a cargo do extinto Departamento de Edificações e Obras Especiais da Secretaria de Viação e Obras Publicas.

Nesta época foi convidado para estudo dos solos da região, e elaborar um plano de combate da erosão, para o município de São João do Caiuá, o Prof. DR Wladimir Cavallar Kavareridze, o qual propôs a implantação de pequenos camalhões, com pequenos intervalos em ter as curvas de níveis, caixas receptoras e um programa educacional. Infelizmente, apesar da autoridade cientifica, muito pouco foi executado.

Em 1970- 1973 o Governo federal e Estadual, realizaram estudos para o combate da Erosão iniciou o Programa Estadual de Controle da Erosãodo Solo Urbano no Noroeste do Paraná, que culminou com a criação da Superintendência de Controle da Erosão do noroeste do Paraná (SUCEPAR).

Apesar dos esforços desenvolvidos e do enorme volume de dinheiro gasto, muito pouco pode ser realizado, pois os estragos da erosão foram tão grandes que inviabilizaram soluções em curto prazo. Muitas obras ruíram sem oferecer resultado, pois faltaram pesquisas sobre os solos da região.


Também muito criticável foi o ataque ao problema, pois empregou-se dinheiro em obra de concreto e esqueceu-se de todo processo que está por trás da erosão. Entre os fatos esquecidos estão a educação, as pesquisas ecológicas, reflorestamentos,e outras. Tentou-se resolver o problema com transferência de tecnologia de outros países, e que na maioria dos casos não deram resultados satisfatórios e foram mero desperdício de dinheiro publico.

Na área rural, a Secretaria de Agricultura, através da ACARPA em 1976, iniciou um trabalho integrado com as cooperativas agropecuárias e implantou o Programa Integrado de Conservação do Solo do Paraná (PROICS), resultandonaexecução de obras de controle da erosão rural em 2.500.000 há, a nível de 85000 imóveis rurais, predominantemente em  lavouras moto mecanizáveis. Este programa não atingiu a região noroeste do Paraná, que em quase toda sua totalidade era pecuária extensiva.

Em 1983 com a participação comunitária o governo estabeleceu, o Programa de Manejo de Solo e Água, que tambémnão pode ser aplicado na Região  Noroeste, uma região onde imperam grandes latifúndios, e um regime de exploração de pecuária, extensiva, a qual exige poucos investimentos. Desta forma o solo da região ficou a mercê da erosão.

Com a perda de valor das terras, o fenômeno da concentração fundiária foi intenso. Municípios com Paranavaí, que em 1960 tinham e421 imóveis no meio rural, em 1980 tinham apenas 1164, isto é, sofreram uma concentração fundiária de 51,92%.

Outro fenômeno importante foi o êxodo rural motivado pela mudança do regime de exploração da terra. A população rural em Paranavaí em 1960 era de 38.161 habitantes, já em 1980 eram apenas 10624 habitantes. O meio rural perdeu neste município 51,92% de sua população em 20 anos.

A erosão no noroeste do Paraná é um processo gradativo e de logo prazo, podendo levar a desertificação de grandes áreas, se investimentos efetivos não forem feitos. Estes investimentosalem das obras deverão  obrigatoriamente tratar  a consciência ambiental.

GRUPO GOETZKE